quarta-feira, 28 de setembro de 2016

mulher


Mulher, senhora de si,
rocha firmada em areias movediças,
dona de raízes,
caules 
e botões a desabrochar.

Dama, vestida de lady,
nudez frágil a quem sabe ver,
rainha de nadas, 
coisas algumas,
por acontecer.

Princesa, sem príncipe,
contradição por legendar,
espera inquieta, 
desassossegada, 
no quê, 
porquê e porque não.

Mulher, insana,
carência florida em pétalas já desfolhadas,
leve no excesso de se ser,
de se querer ser,
em sonho de outro.

domingo, 25 de setembro de 2016

beach, please



Faço ninho,
em areia beijada pelo mar,
com fragilidades
recolhidas por ali.

São desejos entrançados,
sonhos em forma de teto,
 apetites espalhados pelo chão.

Monto tenda,
sem cimento ou tijolo,
em atrevimentos suspirados,
sem medo ou ideal,
como acampamento por agora.

É a tua praia
que me chama,
o salgado da tua pele 
por provar,
as linhas do teu corpo 
por escrever.




quinta-feira, 22 de setembro de 2016

sem mãos


Faço o mundo
com uma mão cheia de nada
e outra vazia de tudo.

Tenho na mão
um punhado de alguém,
flores de outras sementeiras,
pedaços de outras partes.

Floresço-me por entre dedos
nascidos por aí,
em raízes íntimas
da natureza em germinação.

Sou-me vida bravia,
perdendo-me e achando-me
na palma da mão,
minha ou, talvez, não.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

na lua


Esconde inventos,
mitos e precauções.

É mistério, 
segredo ferrolhado,
tão profundo,
nem tem chão.

Segreda possibilidade,
demora e horizonte.

Derrama audácia
como se atrevimento fosse
cautela.

Envolve o meu ser 
em neblina que ninguém sopra.



terça-feira, 20 de setembro de 2016

permitir-se


Não sei se ouse, não.
Atrevo-me e depois vem de lá
o dedo apontado, o juízo
sem contar com a culpa.


No verbo permitir habita
a coragem, a audácia 
e o sorriso.

Há caminho aberto,
eventualidades
e aventuras anfitriãs.

Viver sem permitir-se
é como rio sem foz,
ave em gaiola,
mar sem maré,
sol sem dia.

Permito-me.

Há que permitir-se
sob pena do vazio
do aconchego,
 da acomodação,
de se ser por inteiro.

Dou-me permissão 
para permitir . . . ouso, pois claro.


segunda-feira, 19 de setembro de 2016

das pérolas



E porquê o fascínio das pérolas?- poderiam perguntar alguns.

Bem, para começar o meu nome de batismo tem a ver com elas:


Depois, a pérola é fruto duma irritação dum ser vivo, a ostra.
É interessante constatar como as coisas belas podem surgir de rejeições e obstáculos, não acham?

Por outro lado, quem não gosta de pérolas?
Sejam elas 'originais', de cultura ou mesmo de plástico.

Tornaram-se  um acessório indispensável nos pertences da maioria das pessoas.
Se observarem bem, de certeza que terão algo como a madrepérola ou mesmo pérolas bem perto de vocês.

Confesso que gosto muito delas e, de quando em vez, até me sinto uma delas.

Para além do mais, 
mulheres da blogosfera, 
na dúvida...usem (sempre) pérolas
ou não fossem elas apropriadas para toda e qualquer ocasião.




sexta-feira, 16 de setembro de 2016

como cascata


Como gota atrás de gota
assim se cascatam sonhos
de beijos por provar,
de pele por cheirar.

São despenhos de desejos,
vontades encadeadas,
em catadupas gananciosas,
de te querer,
como rio atordoado 
na deságua do prazer.

Como fiada de pingos,
assim sou eu,
correria,
cascata sem leito,
salto no desconhecido,
buscando teu mar.

Caprichos à sorte,
vertidos no apetite
de conhecer teu sabor.

Queda ousada,
de quem nada perde,
como cascata apaixonada.


quarta-feira, 24 de agosto de 2016

! espantos !


Quanta carícia por sentir,
quanto beijo por trocar,
quanto amor impossível!

Como é oca a regra,
o costume de tudo tutelar!

Como são tantos os arrepios por acontecer
e ingratas as vãs ilusões !


Como pode o teu corpo não conhecer o meu !

Vagueam cheiros teus por ares que não respiro,
sussurros e palavras doces por ouvir !

Sei-te de cor,
em imaginação só minha,
como música continuada,
onde tu és instrumento,
o ritmo da melodia,
e eu
o teu amor !



fagilidades



Silencioso o suspiro sem 'ai',
em delicadeza própria de flor,
como pegada de fada.

Frágil o olhar sem rogo,
em querer mais e mais,
como gelo em dia de sol.

Delicada a boca sem sustento,
em vontades esfaimadas,
como abismo sem fundo.

Terno o corpo sem mácula,
em convenções a cumprir,
como prisioneiro de si.

Afável a volúpia sem ti,
em sentir amorável,
como se fora real.


fagilidades



Silencioso o suspiro sem 'ai',
em delicadeza própria de flor,
como pegada de fada.

Frágil o olhar sem rogo,
em querer mais e mais,
como gelo em dia de sol.

Delicada a boca sem sustento,
em vontades esfaimadas,
como abismo sem fundo.

Terno o corpo sem mácula,
em convenções a cumprir,
como prisioneiro de si.

Afável a volúpia sem ti,
em sentir amorável,
como se fora real.


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Com todo o meu coração


Crua a rocha
em que piso
e faço caminho.

São céus e terras
por onde me eternizo
nesse amor
sem limite
que me consome 
e alimenta.

Rasgo no horizonte
um olhar faminto
de quem tem sede,
de quem tem fome.

Anseio desvairado,
este meu querer-te
de corpo,
alma e mente,
como seta certeira
de Cupido sem freio.

Cruzo serranias,
universos e invernias
só para te ver,
só para te beijar,
com todo o meu coração
por ti despojado.

Fria a sorte do
que me quer mal,
da sombra de trevas
proibida em mim.

Basta-me o fogo desenhado
nas cinzas da memória
por onde te és,
onde te procuro
e te amo,
com todo o meu coração.


sexta-feira, 19 de agosto de 2016

. . . chovo-me . . .


Fragmento-me no todo de mim,
por entre o assobio do vento,
nas asas do sonho.

Quimero-me na flor por nascer,
em semente espalhada por aí,
no acaso de acontecer.

Orvalho-me no coração descansado,
em ritmos que me ultrapassam.

Pequenizo-me no gotejar dos meus risos,
das minhas alegrias,
canseiras e maroteiras.

Chovo-me sem pensar, a dar em doida com tanta alternativa,
com tanto chão por pisar,
e ... eu,
sem saber.

Sou-me assim,
meio minha,
meio sem pertença,
errante e perdida,
no mimo do amor que procuro
para me bastar.




sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Fantasia




No rasgo do tempo
sopram saberes enrugados
ou ainda por acontecer.

São fases sem Lua,
apenas respostas com chave
de livros em branco.

É o mapa de se ser
como mar revolto
de vagas rebeldes
e marés em carrossel.

Longínquos e antigos conhecimentos
de barbas branqueadas em verões sucessivos,
pios eruditos de aves fantasiosas
navegam em ingénuas infâncias
do que está para lá da vida
com causas e efeitos por adivinhar.


domingo, 3 de julho de 2016

há caminho

Rasga-se um caminho 
por entre  vontades esfaimadas,
corre-se em rota de colisão
buscando a interseção 
em pontos de corpos vulcânicos,
fusão embrulhada na pele,
no toque que arrepia só de olhar.

Abre-se passagem por entre 
umbrais de outro mundo,
abraça-se o outro como se fosse nosso
desviando estranhos seculares
em busca da totalidade do ser,
amor sagrado em momentos
de entrega,
em que tu és meu e eu sou tua.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Sem medos





Não há medo que me assuste
nem tempo fantasiado 
de silêncios vazios.

Não há loucura que não viva
nem desejo apetitivo
de ausência por visitar.

Quero viver e morrer
em lagos de medos,
mergulhar nas profundidades
das suas loucuras.

Ser-me só eu,
acto e consequência,
pensamento e emoção,
sem medos,
na imprudência insana
de águas salgadas,
ares ventosos
por onde me vou.


terça-feira, 14 de junho de 2016

ao sol-pôr

Há um sol que se põe,
há um caminho que me aguarda,
há um barco que me chama.

Há praia perdida
que me diz para ir,
chamamento de luz
em tempos que se esgotam.

Há que meter pés ao caminho,
entrouxar dúvidas, certezas
e partir com coisanenhuma.

Há alguém que me espera,
em entardecer que me demora,
pois se a vida é fugaz,
breve no seu sopro
e as marés se impacientam.

Há que ir,
encontrar rasto dessa invocação,
perder-me e achar-me,
em terras reservadas
por onde me ouso,
em busca do sol que se põe!


quinta-feira, 2 de junho de 2016

Despes . . .


Despes a lonjura de outras vidas,
passados tatuados na pele
em emoções que não queres.

És corpo em muda,
resolvido em mudança
porque tem de ser.

Entregas as feridas em memorial,
na carícia das marcas que te fazem lembrar,
como recluso em final de pena.

Descamas-te de desamores,
raivas e ingratidões,
renascimento da tua essência
em advento só teu.

Despes roupagem em cor de rotina,
feitos e fatos que já não te servem
pois és homem novo, assim o queres.



segunda-feira, 30 de maio de 2016

Dependurada



Autorizei-me a desocupar o corpo,
de pele macia e sangue quente,
para me dependurar ali.

Ausentei-me de lutas,
guerras e ilusões
para me quedar por aqui.

Permiti-me outras escolhas,
o ar repleto de outros sensos,
a consciência de me ser 
como pérola,
criada em incómodos alheios,
crescida em marés de direção trocada.

Sei-me concerto sem clave,
intuição sem bravura,
arbitro em jogo próprio,
reflexo de espelho por inventar
como se não me bastasse.

Acho-me no cabide,
dependurada em madeira viva
como se a vida me esperasse
em ternos convites
de juras e promessas.

Larguei-me por agora,
por entre suspiros já cansados.

Engole-me a desordem,
a variedade confusa
da inconstância de me ser,
limitações que não me servem,
preferências por crivar.

Dilemo-me na variação da opção,
na fronteira do que posso
ou sou . . .

domingo, 29 de maio de 2016

Beach, please !



Soa a cantilena esganiçada,
pois soa.

É vontade de mar,
pois é.

Dá vontade de mudar de país,
pois dá.

Dobram os sinos pela primavera perdida,
pois dobram.

Empresto paciência a mim,
pois empresto.

Que hei de fazer?

Sou (confessa) amante de verão,
sol,
areia,
calor,
óbvias vontades de clima temperado.

E depois?

A mudança é a única permanência
e a ela terei de me render.

Enfim,
resta-me pedir:
" Beach, please !"



sábado, 28 de maio de 2016

No meu vale ... há uma casa



Há uma casa
plantada no meu vale
manso e de águas correntes.

Essa casa fez morada
em meu chão,
bebeu do meu rio,
plantando-se no meu vale
como peregrino
ou hóspede sem prazo.

Há uma casa engraçada 
por aqui,
com jeito de letra, enfim,
e meu vale soltou-se de mim.



sexta-feira, 27 de maio de 2016

Só por Hoje



Só por hoje,
deixo a tinta secar
em palavras escritas por ti,
silêncios tatuados na minha pele,
desejos e vontades desenhados na ponta  da tua pena.

Só por hoje,
permito-te a ousadia de me penetrares
em íntimos ocultos,
confidências onde te sou página em branco.

Só por hoje,
abandono-me em tuas mãos,
ofereço-te o corpo virgem,
por onde te podes aventurar
e escrever o momento 
onde somos sol e lua,
terra e mar
em Todo só nosso.

Só por hoje,
quero-te como guião do meu filme,
argumento a estrear,
em falas, palavras e takes
que me viram do avesso,
marcada por ti.

Só por hoje,
desliza-te em mim,
como quiseres,
pois dei férias às amarras,
e soltei o atrevimento nu 
de me oferecer-te.


terça-feira, 17 de maio de 2016

excesso



Quero estancar este desvario,
o fluxo de rio sem foz,
esta corrente de pensamentos sem eco.

Quero desaguar este querer,
a chuva de palavras sem chão,
este despropósito sem causa.

Quero gritar este sentir,
o fragmento inteiro sem voz,
esta mania de me ser
...
em excessos que me sobejam,
o desgoverno sem lei,
esta demasia só minha.



domingo, 1 de maio de 2016

no beijo


"A vida é curta demais para ser pequena"

Deixa tempestades lá fora,
com os raios, trovões
e seus amigos sombrios.

Que importa a chuva
se dentro de ti raia o esperançoso sol
no beijo demorado
de improvável encontro?

Despovoa essa terra
de incertezas e frio,
procura outras,
amenas e confiantes.

Oferece-te ao calor rubro
desses lábios 
em desespero de ti.

Ilumina-te na carícia
desse toque 
que te tomará as entranhas
e mostrará quem és.

 Há um outro mundo
à tua espera.
Basta que te atrevas
no beijo.


sábado, 30 de abril de 2016

Um Olhar qualquer



Olha-se e não se vê,
vê-se e não se olha.

Comenta-se na cegueira,
cega-se no comentário.

Julga-se nos sentidos,
sente-se nos julgamentos.

Adivinha-se o que não se sabe,
sabe-se o que se adivinha.

Recebe-se o que se dá,
dá-se o que se tem.


E tu? 
Para onde olhaste primeiro?
Que te prendeu o olhar?
O cachorro?
O homem?
Um sentir qualquer nascido da pele nua?


quinta-feira, 28 de abril de 2016

tua


William Oxer

Entardece, amor,
no abraço da noite 
traficante de ilusões.

Tolda-me o sentir do Sol 
que sempre nasce
e a primavera
que sempre chega.

Penumbra-se o mar
em marés que sempre vêm,
umas como quem quer engolir a terra,
outras de mansinho,
em afagos húmidos.

Deixa a névoa encastelar-se
na própria sombra
em brumas sem diferença,
importâncias de outros.

Vem, amor,
no beijo da luz,
olha-me como se fora única
aquela que se despe,,
de alma só tua
para ti.